Opinião
Cel. Fawcett e a lenda de seu neto indígena / Suelme Fernandes
Opinião
Redação
A selva amazônica mato-grossense guarda segredos e imaginários que nem mesmo o tempo consegue desvendar. Entre eles, a história de Dulipé, um indígena de pele alva cuja vida se entrelaça com o desaparecimento do explorador britânico Percy Fawcett em 1925 — um enigma que até hoje alimenta teorias, expedições fracassadas e até inspirações para Hollywood.
Tudo começou quando Fawcett, um coronel obcecado por encontrar um tesouro escondido, há cem anos atrás, partiu na selva de Mato Grosso com seu filho Jack e o amigo Raleigh Rimell na tentativa de encontrar a lendária cidade perdida Z.
A última mensagem do grupo, enviada em 29 de maio de 1925, dizia que estavam prestes a adentrar um território “inexplorado e perigoso”. Depois disso, silêncio. O desaparecimento mobilizou dezenas de expedições, mas nenhuma trouxe respostas — apenas mais mistérios.
Foi em meio a essa busca desesperada que, em 1943, o famoso jornalista brasileiro Edmar Morel surgiu com mais uma teoria bizarra. Numa expedição em busca do paradeiro de Fawcett que rendia muita especulação na imprensa afirmou que entre os Bakairi, encontrara um indígena alto de traços europeus chamado Dulipé, que segundo os indígenas seria filho de Jack Fawcett neto de Percy, fruto de uma relação com uma mulher xinguana.
Morel levou o homem para Cuiabá, onde ele foi fotografado com roupas ocidentais e apresentado como “o último vestígio da expedição perdida”. A imagem correu o mundo, mas a família Fawcett negou veementemente a história, alegando que Jack era “virgem e desinteressado em mulheres”.
Dulipé, descrito como “fantasmagoricamente pálido” — talvez um caso raro de albinismo entre indígenas, tornou-se um símbolo ambíguo.
Em Cuiabá, trabalhou no Serviço de Proteção aos Índios (SPI), mas a vida na cidade o consumiu: caiu no alcoolismo e morreu esfaqueado em 1959, após uma briga num baile da periferia.
Sua morte, tão obscura quanto sua origem, enterrou qualquer chance de desvendar o elo com os Fawcett. Sem DNA ou documentos conclusivos, Dulipé apelidado em Cuiabá de Tripé permanece uma figura entre o mito e a realidade, um reflexo da própria Amazônia, que engole histórias e as devora como lenda .
Teorias absurdas floresceram: desde que Fawcett teria se tornado um chefe tribal até que encontrou “Z”; Que foi morto por índigenas Kalapalo; Que teria morrido na floresta de fome ou que foi impedido de voltar para proteger seu segredo.
O que Dulipé e Fawcett compartilham, além do mistério, é o preço da curiosidade humana. Um morreu na selva de concreto; o outro, na selva verde.
Se a floresta um dia revelará a verdade, só o tempo dirá. Até lá, Dulipé e Fawcett permanecem como fantasmas a assombrar a imaginação de exploradores e historiadores até os dias atuais.
As fotos inéditas desse artigo pertenceram a Ramiro Noronha e são do Acervo Casa Barão de Melgaço.
Suelme Fernandes Mestre em História e Membro do IHGMT.
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