Opinião
A extinção dos dinossauros
Renato de Paiva Pereira
A Arca que o Senhor mandou Noé construir era muito grande. Media cerca de 120 metros de comprimento, 22 de largura e 13 de altura. Mais ou menos do tamanho de um cargueiro médio atual.
“De todos os animais limpos tomarás para ti sete e sete, o macho e sua fêmea; mas dos animais que não são limpos, dois, o macho e sua fêmea”. “E leva contigo de toda a comida que se come e ajunta-a para ti; e te será para mantimento, a ti e a eles”.
Mandou Deus que Noé, sua esposa, seus filhos e suas noras entrassem na arca, assim que se instalaram a bordo, a chuvarada despencou.
A mulher de um dos filhos teria pedido ao marido que falasse para o pai embarcar também sua mãe (dela).
“Vou falar com ele”, teria dito Jafé, o filho, mas não levou o pedido a Noé.
“O pai falou que não tem jeito” – mentiu o marido.
“Mas, como? Minha mãe vale menos que um macaco ou uma capivara”?
“São os desígnios do Altíssimo, ninguém pode ir contra Sua vontade”, disse ele. Na verdade, estava convencido de que não se perdia grande coisa, deixando a sogra pra trás.
Os bichos já tinham chegado. Da América do Sul vieram a onça-pintada, a capivara e a preguiça.
Da América do Norte, o bisão, o castor, o alce e o puma.
Da Ásia: o tigre, o orangotango, o rinoceronte. Da Oceania – canguru e o diabo da Tasmânia.
E milhares de outros bichos comuns a diversas regiões foram entrando na arca e, sem tumulto, ocuparam seus lugares. Não sei como a preguiça e o tatu conseguiram percorrer a distância das terras que seriam o Brasil no futuro até o Oriente médio, onde a arca os esperava. Também há dúvidas sobre a possibilidade de vida dos animais polares naquela barcaça sem gelo e como o canguru atravessou o oceano a nado para não perder o embarque.
Outra desconfiança é como conseguiram armazenar tanto alimento necessário para manter a bicharada por um ano. Além da dificuldade de providenciar carne para o leão, a onça, o tigre, entre outros carnívoros, sem sacrificar os carneiros, veados e bois ali alojados.
Este Foi o momento em que se extinguiram os dinossauros da face da Terra: quando o casal de dinos escolhido para preservar a espécie chegou ao barranco, a arca já tinha partido e estava à deriva naquele mundaréu de água.
“Não falei, Dina, que se você não apressasse, a gente ia perder o embarque? Essa mania que você tem de sempre chegar atrasada nos compromissos”. Gritava o dinossauro macho.
“Não enche, Dino, você acha que eu ia sair sem me arrumar para passar um ano neste badalado navio”?
A Arca sumiu no horizonte, deixando para trás os dois dinossauros discutindo. Assim, estes animais se extinguiram e estava lançada a primeira temporada de cruzeiros, que mais tarde se espalhariam pelo mundo.
Nota do autor: este texto é baseado no relato bíblico do dilúvio, exceto onde não é.
Renato de Paiva Pereira é empresário e escritor.
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