Opinião
Memórias mais profundas
Soraya Medeiros
As memórias mais profundas não vivem no que conseguimos contar, mas no que o corpo insiste em sentir. Datas se perdem; sensações ficam. Pergunte a alguém sobre a infância e talvez lhe falte precisão. Mas pergunte pela cor das paredes do quarto, pelo cheiro da casa da avó ou pelo sabor do lanche depois da escola — e uma geografia afetiva inteira se acende.
Na minha infância, as paredes eram de um amarelo suave: luz de fim de tarde eternizada. Não o amarelo estridente das escolhas apressadas da vida adulta, mas um tom que parecia acolher o sol e devolvê-lo ao aconchego. Esse amarelo tinha gosto de mingau com canela nas manhãs frias e cheiro de roupa limpa no armário de madeira.
A felicidade cabia em cenas pequenas: bolhas de sabão no ar, desenhos aos sábados com achocolatado espumoso, a aspereza do tronco da árvore onde eu erguia castelos imaginários. Havia o cheiro que antecede a chuva — terra molhada, um leve ozônio no ar — anunciando o tempo de contemplar a vida da varanda ou tomar banho de chuva, como quem lava até os pensamentos. A alegria tinha sabor de fruta colhida do pé e de pão quente com manteiga; tinha o som de risos vindos da cozinha e o abrigo de um cobertor nas noites frias.
Gaston Bachelard, em A Poética do Espaço, ajuda a entender por que essas imagens permanecem. Ao falar da “topoanálise”, mostra como os lugares da intimidade nos constituem. A casa da infância não é cenário: é território emocional que carregamos por dentro. É ali que se forma nosso primeiro universo.
Aquelas paredes amarelas não eram tintas: eram continentes emocionais onde se desenrolaram os primeiros dramas e encantamentos. Cada canto, cada sombra, cada fresta de luz compunha um “espaço feliz” que, sem percebermos, nos moldava. Mudamos de endereço, de cidade, de vida — mas as geografias íntimas nos acompanham.
Hoje, percebo esse diálogo nas escolhas do presente: tons terrosos, amarelos suaves, verdes que acalmam. O paladar ainda busca o conforto dos sabores simples — não por saudosismo, mas por reconhecimento. O tato pede materiais que contam histórias e imperfeições que aquecem mais do que o brilho frio do novo.
A memória não é arquivo; é reconstrução. Um cheiro ou uma música não nos levam apenas a um lugar: devolvem um estado de ser. A criança que fomos não se perdeu; ela nos encontra por chaves sensoriais.
Perguntar pela cor das paredes da infância é perguntar pela nossa primeira linguagem — a dos sentidos, anterior às palavras. O que importa não é a exatidão do fato, mas a verdade emocional que permanece. Talvez o trabalho da vida adulta não seja superar a infância, mas traduzi-la para o presente. Fica a pergunta: qual é a cor das nossas paredes interiores hoje?
Soraya Medeiros é jornalista.
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