Opinião
A Hidra da Corrupção e a lição de Hércules/ por Luiz Henrique
Redação
A mitologia grega, embora milenar, ainda oferece valiosas lições para as esferas pública e privada.
Povoada de deuses e criaturas mágicas – como centauros, sereias, ciclopes e cavalos alados – nela há poucos personagens humanos que se destacam. Um dos mais conhecidos é Hércules, dotado de extraordinária força física e coragem. Perseguido pela deusa Hera e sob efeito de um feitiço, Hércules praticou um crime terrível, assassinando a própria família. Como expiação, teve que servir por doze anos a um rei medíocre e executar tarefas sobre-humanas, que passaram à história como Os Doze Trabalhos de Hércules.
O segundo desses trabalhos, enfrentar a Hidra de Lerna, serve como reflexão oportuna, especialmente na semana em que se celebra o Dia Internacional de Combate à Corrupção. A Hidra de Lerna era um monstro com múltiplas cabeças, corpo de dragão/serpente, que vivia em águas pantanosas e cujo hálito venenoso matava os que a ele se expunham.
Transportando o mito para o tempo presente, podemos imaginar o fenômeno da corrupção como uma criatura com múltiplas cabeças, ramificando-se nas mais diversas atividades nas áreas pública e privada, esportiva, acadêmica, religiosa, associativa etc. Assim, a corrupção não se limita à propina exigida para praticar – ou deixar de praticar – determinada ação ou decisão. O desperdício de recursos públicos, a inversão de prioridades, a ausência de planejamento, a insensibilidade ante a injustiça e a destruição ambiental também são formas de corrupção e cabeças desse monstro insaciável.
Uma das características da Hidra de Lerna, também observável na Hidra da Corrupção, é que quando se cortava uma cabeça, nasciam duas outras, tornando a luta infrutífera, inglória, infinita e quase impossível de ser vencida. Quantas vezes presenciamos uma atuação certeira dos órgãos de controle ser neutralizada pela metamorfose do ilícito em outro formato, ou pelo surgimento de novos esquemas, com novos ou os mesmos personagens. Quantas milhares de horas de auditorias e investigações – sérias, dedicadas e competentes – são anuladas por pretextos bizarros, mas convenientes?
Mas a mitologia também nos traz uma esperança, pois, contrariando todos os prognósticos, Hércules derrotou a Hidra. Para isso, utilizou uma estratégia e uma aliança. Cada vez que decepava uma cabeça do monstro, imediatamente seu colaborador Iolau empregava uma tocha de fogo para cauterizar o pescoço, impedindo o surgimento de novas cabeças. Somente assim, o herói conseguiu triunfar.
É a lição de Hércules que precisamos seguir no combate à Hidra da Corrupção.
Para além da ação repressiva de cortar as cabeças, promovendo a responsabilização dos ímprobos e criminosos que lesam o erário e a coletividade, é necessário cauterizar os pescoços, ou seja, investir na prevenção sistêmica, identificando riscos e fortalecendo continuamente os mecanismos de controle, bem como ampliando a transparência, pois é nas sombras dos pântanos que vicejam as tramoias. Ademais, os órgãos de controle devem atuar de modo coordenado, colaborativo, convergente e complementar, como fez Iolau auxiliando Hércules.
Finalmente, essa história precisa ser contada, tanto nas escolas, como nas redes sociais. É fundamental promover uma cultura de integridade, de respeito à ética e de valorização da probidade.
Talvez esse artigo encontre algumas cabeças da Hidra rindo no pântano da impunidade, debochando do que consideram ingenuidade de nossa parte. Talvez. Enquanto isso, é tempo de prepararmos o fogo da integridade, da transparência e da coordenação para cauterizar permanentemente as feridas institucionais, garantindo que o ciclo vicioso de fraudes e falcatruas seja, finalmente, quebrado.
Só assim o Brasil poderá ascender a um patamar civilizatório e humanista à altura de seu destino.
Luiz Henrique Lima é professor e conselheiro independente certificado.
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