Opinião
A romantização do ‘faz tudo’ na comunicação
Noelisa Andreola
Venho por meio deste fazer uma reclamação: em que momento o profissional da comunicação virou um canivete suíço? Isso mesmo, multitarefa.
Nós, enquanto profissionais da área, entendemos que é necessário se atualizar. Mas isso não significa que devamos suprir sozinhos a ausência de uma equipe de comunicação minimamente estruturada.
Virou rotina encontrar vagas para “assessor de comunicação” ou “assessor de imprensa” que exigem um combo interminável de habilidades: escreva texto jornalístico, tire foto, faça arte, edite vídeo, gerencie redes sociais, produza copy, acompanhe métricas, saiba tráfego, entenda de posicionamento digital… e a lista segue como se tudo isso fosse natural a um único profissional.
O problema é que nada parece ser suficiente. Muitos empregadores querem baratear o custo de manter uma equipe de comunicação que realmente funcione e, por isso, oferecem salários “relativamente altos” para que uma única pessoa assuma o trabalho de, no mínimo, cinco profissionais diferentes. Mesmo sabendo que é impossível dar conta de tudo, a cobrança é feita como se o profissional tivesse estrutura, tempo e equipe para entregar cada tarefa com excelência.
Agora eu pergunto: em que momento esse profissional consegue parar para traçar o perfil do seu assessorado e pensar estratégias reais de comunicação, se precisa estar o tempo inteiro executando funções operacionais que deveriam ser divididas entre várias pessoas?
Esse modelo de “comunicador-faz-tudo” está longe de ser inovação. Ele se aproxima, na verdade, de um fordismo da comunicação, em que se busca produtividade extrema por meio da fragmentação e sobreposição de tarefas. Só que, nesse caso, a linha de montagem é uma só: o próprio profissional.
E isso não é só percepção individual. Segundo o relatório da FENAJ sobre as condições de trabalho dos jornalistas no Brasil, publicado em 2023, quase 80% dos profissionais acumulam funções além daquelas previstas originalmente em seus cargos. Isso impacta diretamente a saúde mental, a qualidade das entregas e, principalmente, a valorização da profissão. O estudo também aponta que 45% dos jornalistas não recebem remuneração compatível com as múltiplas funções que exercem, evidenciando uma precarização generalizada que vem sendo normalizada.
A precarização da função do assessor é um tema urgente. Precisa ser debatido com seriedade. Comunicação não é improviso. Comunicação não é favor. Comunicação não é mágica. Cada profissional tem sua função, e tentar condensar tudo em uma única pessoa não é eficiência. É exploração.
Se você trabalha com comunicação e também se sente engolido por essa lógica perversa de fazer tudo ao mesmo tempo, essa conversa é com você. Precisamos falar mais sobre isso, trocar experiências, apoiar uns aos outros e, principalmente, exigir condições dignas para exercer um trabalho que, quando feito com estrutura, transforma realidades.
Noelisa Andreola é assessora de Comunicação da Secretaria de Fazenda de Mato Grosso, jornalista formada pela Universidade de Cuiabá (UNIC), com experiência em imprensa política e institucional.
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