Opinião
Celular na escola
Renato de Paiva Pereira
Escrevi a crônica abaixo em 2006.
“Nunca tive um aparelho de telefone celular, embora reconheça sua utilidade”.
Quando ele foi lançado no Brasil, há mais ou menos 12 anos (1994), não o comprei por três razões, a meu ver, suficientes: seu raio de ação era muito limitado, o preço muito alto e, por último, eu não precisava daquilo.
Passados cerca de quatro anos, melhorou muito a cobertura nacional e já era possível falar de quase todas as cidades brasileiras. Mas ele continuava caro. Foi aí que apareceu uma nova variável para manter a minha resistência a esta extraordinária ferramenta de comunicação: o aparelho passou a ser adorno de cintura de novos-ricos e exibicionistas de todos os calibres. Permaneceram então, ainda, três condições – já que saiu uma e entrou outra – que me afastavam deste ainda objeto de desejo de muitos brasileiros: preço alto, uso indiscriminado como adorno de mau gosto e, terceira, verdadeiramente, eu não precisava daquilo.
Mudei de ideia: a tecnologia foi colocando dentro dessa caixinha milagrosa utilidades hoje imprescindíveis nas lidas do dia a dia. Nela estão: relógio, agenda, dicionário, telefone, centenas de aplicativos e toda a informação disponível no mundo.
Já não precisamos ir ao banco nem ao supermercado. Podemos comprar um sapato na China ou uma bolsa na França. Com essa ferramenta, acionamos um carro que nos pega em qualquer lugar em cinco minutos; pedimos e pagamos uma comida, um remédio ou um livro.
Como não se apaixonar por algo tão útil e fantástico?
Mas como as coisas boas podem também ter um lado ruim, surgiram as Redes Sociais, criadas e exploradas, gananciosamente, pelas Big Techs mundiais.
Aí, o que era uma ferramenta de inegável utilidade virou também um vício. Com nossa notória curiosidade, passamos a nos informar da vida dos outros e a publicar os detalhes das nossas.
Agora, muitos de nós passamos horas seguidas, espiando a vida amorosa do Neymar; “visitando” a mansão de algum cantor sertanejo ou “seguindo” este ou aquele BBB da moda.
Enfim, viciamos no voyeurismo!
Isto criou um problema: como muitos de nós temos filhos que estão obcecados pela caixinha milagrosa, nasceu a preocupação sobre os possíveis danos que este hábito pode trazer-lhes futuramente.
Mas como educá-los se não conseguimos domar o próprio vício ou convencê-los a restringir a exposição à tela se não desgrudamos do nosso brinquedinho? De que jeito persuadi-los com o exemplo que não damos?
Creio que é mesmo difícil moderar o uso: vídeos, músicas, filmes, piadas (sem falar da pornografia) oferecidos nas redes são como uma droga viciante. Pior, é legal, barata e disponível.
A consciência de seus males é a razão para uma aprovação quase unânime dos pais à lei sancionada no último dia 13, que proíbe o celular nas escolas.
Pelo menos é algum, embora pequeno, alívio: no tempo em que as crianças ficam nas escolas, estarão longe dos celulares. É uma terceirização aos professores da custosa tarefa de limitar para os nossos filhos, o uso do telefone celular.
Renato de Paiva Pereira é empresário e escritor.
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