Opinião
Entre o discurso e a prática, o desafio da coerência na política de gênero
A violência política de gênero é uma realidade que precisa ser enfrentada com seriedade. Mulheres em posições de poder ainda são alvo de ataques que ultrapassam o campo das ideias e atingem sua condição de gênero. Esse é um problema estrutural, que exige posicionamento firme e, acima de tudo, coerência.
Em Várzea Grande, o tema voltou ao centro do debate após a prefeita Flávia Moretti afirmar ser vítima desse tipo de violência. A denúncia é legítima e merece atenção, como qualquer outra. No entanto, o cenário ganha contornos mais complexos quando surgem episódios que colocam em dúvida a uniformidade desse discurso.
O caso envolvendo a vereadora Gisa Barros evidencia essa contradição. Ao relatar ter sido impedida de ocupar espaço em um evento institucional, a parlamentar levantou uma questão incômoda, mas necessária: é possível combater a violência política de gênero enquanto se reproduz, ainda que de forma indireta, práticas que excluem ou diminuem outras mulheres?
A resposta, do ponto de vista ético, é simples: não. A luta contra qualquer forma de violência não pode ser seletiva. Quando o discurso é utilizado conforme a conveniência política, ele perde força e, pior, descredibiliza uma pauta que já enfrenta resistência histórica.
É preciso separar o embate político, que é natural e saudável, de atitudes que carregam traços de desigualdade. Divergir faz parte da democracia. Excluir, constranger ou deslegitimar pela condição de gênero não.
O que se vê, neste momento, é um alerta claro sobre os riscos da incoerência. Quando figuras públicas assumem o papel de denunciar injustiças, elas também assumem a responsabilidade de não reproduzi-las. Caso contrário, o discurso se transforma em retórica vazia.
A sociedade observa. E mais do que discursos bem construídos, cobra atitudes. A coerência, nesse contexto, não é apenas uma virtude, é uma exigência.
Se a violência política de gênero deve ser combatida, que seja de forma ampla, irrestrita e sem distinção de lado. Porque, quando a régua muda conforme o interesse, quem perde não é apenas a credibilidade de quem fala, mas toda uma causa que precisa, mais do que nunca, de ser levada a sério.
Daniel Costa
Jornalista e graduado em Gestão Pública
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