Opinião
Quando a chuva é insuficiente
Julie Campbell
Realidade vivida de perto por todo o país, as mudanças climáticas impactam diretamente a gestão dos recursos hídricos. Cuiabá está no mapa oficial de escassez de água. A capital faz parte da Bacia Hidrográfica do Paraguai, região que registra déficit na recarga hídrica natural. Comparada à média histórica das chuvas, a água que deveria cair do céu, este ano, não registrou volume expressivo.
A recente crise hídrica de 2021 nos deixou lições valiosas e nos desafiou a repensar nosso relacionamento com a água. À época, o nível da barragem do Manso, que controla o balanço hidráulico da captação do Rio Cuiabá, umas das principais da capital, chegou a registrar a marca histórica de reservação de 8%. Três anos depois, mesmo em meio a uma estiagem prolongada, estamos em 42%.
Essa melhoria, no entanto, não significa que podemos relaxar. Apesar do abastecimento ocorrer de forma estável por aqui, Cuiabá ultrapassou os 140 dias sem chuva e a seca foi precursora do fogo, que assola grande parte do Estado – e do país. Com os picos de calor, a baixa umidade do ar e a fumaça, inevitavelmente, o consumo de água tratada sobe. Observamos um aumento de 11% na demanda, diante do mesmo período do ano passado.
Esse cenário exige de nós não apenas um gerenciamento eficiente, feito por meio de investimentos massivos nos sistemas de tratamento e distribuição de água, mas também um reforço importante nas ações voltadas ao uso consciente do recurso hídrico. Em tempos de desafios ambientais, nosso comportamento vai ser um grande diferencial.
Pequenas ações do cotidiano, como tomar banhos mais curtos, reutilizar água da lavagem de roupas e adotar práticas de economia nas tarefas diárias, têm um impacto significativo quando realizadas em massa. É essencial que cada pessoa compreenda que seu comportamento individual produz um efeito positivo para a preservação de um recurso tão precioso.
Estamos trabalhando para assegurar um abastecimento guiado pela sustentabilidade, concentrando esforços em ações que vão do operacional, com a criação de um Comitê de Acompanhamento Interno, em contato permanente com órgãos oficiais e de monitoramento meteorológico, ao social, com campanhas educativas que incentivam a população a repensar o consumo de água, como a distribuição de ampulhetas para cronometrar o tempo do banho.
A luta contra as mudanças climáticas e a gestão dos recursos hídricos não são tarefas de um único setor ou de uma única pessoa. Elas requerem a colaboração de todos nós. E quando a chuva é insuficiente? É hora de agir! O futuro de Cuiabá, conhecida pelo rio que a homenageia com o próprio nome, depende das escolhas que fazemos hoje.
Julie Campbell é diretora operacional da Águas Cuiabá.
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