Opinião
A briga coreografada de Cattani e Neri/ Andhressa Barboza
Redação
Às vezes, uma briga política é apenas uma dança bem coreografada. Os dois lados se degladiam com fervor, trocam farpas e provocações, mas, ao mesmo tempo, se esquivam nos momentos em que seria prejudicial confrontar de verdade e atacam precisamente quando a audiência está atenta. É exatamente isso que acontece entre o deputado estadual Gilberto Cattani (PL) e o ex-deputado federal e ex-ministro da Agricultura, Neri Geller (PP), em Mato Grosso. O que pode parecer um conflito genuíno é, na verdade, uma performance política onde cada um ganha com a sua plateia específica, aquecendo os motores para uma pré-campanha que promete ser tão complexa quanto o próprio estado.
Nesta briga, não há perdedores. De um lado, Cattani reforça seu perfil de “guardião” da moral bolsonarista junto ao agronegócio, consolidando sua base ideológica. Do outro, Geller, um operador político experiente, ganha visibilidade e se projeta para um eleitorado mais moderado que, embora conservador, é pragmático quando o assunto é lucro e o público começa a reconhecer que a gestão Bolsonaro não foi particularmente lucrativa.
Gilberto Cattani, que deve buscar reeleição na ALMT, teve uma ascensão meteórica e fiel ao Bolsonarismo raiz. Eleito primeiro suplente, assumiu a vaga na Assembleia Legislativa em março de 2021 após a morte do deputado Silvio Favero (PSL) por Covid-19. Sua posse foi marcada por disputa judicial, já que havia trocado de partido para concorrer como suplente de senador na chapa de Reinaldo Morais (PSC) em 2020. A articulação com o então presidente nacional do PSL, Luciano Bivar, foi crucial para garantir seu mandato, que consolidou ao ser reeleito em 2022 pelo PL.
Neri Geller é a personificação do pragmatismo político mato-grossense. Com longo histórico junto ao grupo de Blairo Maggi, foi um deputado federal influente e homem de confiança de Arthur Lira, articulador da bancada de Mato Grosso e do governo Bolsonaro no Congresso. Em uma virada surpreendente, optou por não buscar reeleição em 2022 e concorreu ao Senado na chapa de apoio a Lula, uma mudança de barco que chocou muitos. Sua campanha foi frustrada por um revés judicial. Ato contínuo, assumiu um cargo no Ministério da Agricultura do governo Lula, mas optou por sair em meio à polêmica crise na compra de arroz, em junho de 2024, após o governo anular um leilão bilionário sob suspeita de irregularidades.
A polêmica teve como estopim a origem histórica de Lucas do Rio Verde. Geller associou a fundação do município a um movimento do MST no Rio Grande do Sul, o que foi prontamente rebatido por Cattani, que defendeu a origem como um projeto de assentamento do Incra, rotulando o MST como “terrorista” e “inimigo da reforma agrária”. Para Cattani, atacar o MST é música para os ouvidos de sua base, reforçando lealdade à cartilha bolsonarista. Geller, ao ser provocado, contra-atacou com astúcia. Justificou seu apoio passado a Dilma Rousseff como questão de “lealdade” e pragmatismo, e lembrou que o senador Wellington Fagundes (PL), hoje um dos principais nomes do bolsonarismo em Mato Grosso, foi coordenador da campanha de Dilma no estado. Com isso, normalizou sua própria fluidez ideológica. Sua resposta final, mandando Cattani “ir rachar lenha” e focar no trabalho, pintou o adversário como polemista e a si mesmo como gestor focado em resultados.
Este embate sinaliza as movimentações para 2026. Cattani garante seu espaço junto ao núcleo duro do bolsonarismo, falando para aqueles que veem a política como guerra cultural. Geller, por outro lado, se dirige a um segmento crucial: os conservadores nos costumes e liberais na economia. Este grupo, embora tenha apoiado Bolsonaro, sentiu que a instabilidade e falta de diálogo com mercados importantes não foram benéficas. Ao confrontar o radicalismo de Cattani, Geller se apresenta como alternativa de direita mais pragmática, alguém que entende que, no fim, o que importa é o lucro e a previsibilidade.
Em uma arena política onde as alianças são fluidas, a briga entre Cattani e Geller não é sinal de fraqueza, mas de estratégia bem executada, onde cada um dança para sua plateia, se esquivando quando necessário e atacando quando estratégico.
Andhressa Barboza é jornalista e cientista social.
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