Opinião
A mala de papelão
Gabriel Novis Neves
Viajei para o Rio de Janeiro, em 1953, com uma mala simples, cheia de sonhos e saudades — símbolo das viagens que mudam a vida.
A pequena mala era de papelão.
Com o tempo fui esquecendo o que levava dentro, mas sabia que ali estava o essencial. Aquela frágil companheira não voltou comigo para Cuiabá.
Gostaria de saber o que aconteceu com ela.
Nas minhas mudanças pelas pensões da cidade onde estudei, a mala sempre me acompanhou fielmente.
No regresso vitorioso, com o diploma de médico debaixo do braço, pergunto-me: o que fiz da minha inseparável mala de papelão?
Talvez meus futuros sonhos estivessem guardados na casinha de oitenta metros quadrados, numa rua ainda sem pavimentação.
Lá nasceram meus três filhos.
Depois de cinco anos deixamos a casa.
Ela já não nos cabia mais.
Hoje, nem a saudade posso matar passando por lá — foi vendida e transformada em estacionamento de automóveis.
A casa onde o sonho começou, na rua do Campo, também foi vendida, demolida e virou estacionamento.
Minha história foi vivida quando os sonhos começaram a se tornar realidade, na rua Major Gama, no Porto.
Ali materializei ambições que até eu desconhecia: nenhum mato-grossense precisava mais comprar uma mala de papelão para viajar e estudar fora do Estado.
Era o tempo da implantação da Universidade Federal de Mato Grosso — a nossa Universidade da Selva — com seus cursos, inclusive os nobres: Direito, Engenharia Civil e Medicina, na Cidade Universitária, do Coxipó da Ponte.
Na mesma casa, celebrei o casamento da minha única filha, com recepção no dia do meu aniversário.
A casa também foi vendida e transformada em comércio.
Há trinta anos moro em meu último endereço —um espigão de concreto armado, no último andar.
Aqui vivo, com a dor silenciosa da viuvez, lembrando da mala de papelão que me acompanhou nessa grande aventura e das casas que um dia me abrigaram.
Gabriel Novis Neves é médico e ex-reitor da UFMT.
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