Política
Ex-prefeito que “asfaltou” Cuiabá vê cidade com autoestima baixa
O ex-prefeito de Cuiabá Rodrigues Palma, que administrou a Capital entre 1975 e 1979, acredita que a autoestima do cidadão cuiabano está baixa devido ao abandono que a cidade enfrenta atualmente.

Eu nunca tive problema com a arrecadação de IPTU. Hoje eu vejo o povo reclamar porque ninguém paga… Falta autoestima
“Essas coisas diminuem realmente a autoestima. As pessoas sentem que seu bairro está abandonado”, afirmou.
Segundo ele, esse sentimento influencia até na arrecadação. Quem vê o dinheiro de seus impostos tendo retorno em investimentos na cidade, tende a pagar sem grandes reclamações, avalia.
“Quando nós começamos a fazer as obras nos bairros, de botar asfalto, a autoestima aumentou e as pessoas pagavam imposto. Eu nunca tive problema com a arrecadação de IPTU. Hoje eu vejo o povo reclamar porque ninguém paga IPTU. Falta autoestima”, diz, recordando sua gestão.
Palma ficou conhecido como o prefeito que impulsionou grandes obras na Capital, entre elas asfaltar cerca de 300 quilômetros de vias, duplicação da Avenida Fernando Corrêa e o fechamento do córrego da Prainha.
Questionado sobre qual o melhor nome para a sucessão ao Alencastro nas eleições deste ano, o ex-prefeito elogiou os principais pré-candidatos e disse que o próximo prefeito tem que ter uma boa relação com o Governo do Estado.
“[O principal desafio] sem dúvidas é botar ordem na casa […] e torcer para que o novo prefeito tenha um bom relacionamento com o governador”, sugeriu.
Veja os principais trechos da entrevista:
MidiaNews – O que o senhor considera como principal legado da sua gestão??
Rodrigues Palma – Cuiabá em 1975 era uma cidade com 80 mil habitantes. A única rua que existia asfaltada era a Getúlio Vargas, que era calçada com paralelepípedo. Isso é há 50 anos.
Cuiabá era uma cidade provinciana. Você tinha o canal da Prainha a céu aberto, que virava e mexia tinha um carro lá dentro. Então, eu acho que um legado foi que fizemos as primeiras ruas asfaltadas em Cuiabá e, no final de mandato, tínhamos quase 300 km de asfalto. Uma cidade que não existia nada, de uma hora pra outra, teve 300 km de asfalto.
Nós fechamos o canal da Prainha e fizemos aquela avenida, fizemos a Avenida Beira Rio, que hoje, se não sei o que seria de Cuiabá sem ela, a duplicação da Avenida Fernando Corrêa, o primeiro Pronto Socorro de Cuiabá, além de criar uma Secretaria de Educação, pois as escolas de Cuiabá não eram reconhecidas pelo MEC.
Na área social nós implantamos as primeiras associações de bairro, fizemos os centros comunitários. Nós fizemos o bairro Carumbé, terminamos o Carumbé I e fizemos o Carumbé II para conter as invasões que eram muitas na época. Então, acho que fizemos um bom negócio aqui em Cuiabá.
Nós não tínhamos muito recurso, então nós fomos ao BNH [Banco Nacional da Habitação, que existiu de 1964 a 1986] e criamos na época um programa chamado Projeto Cura, que era Comunidade Urbana e Recuperação Acelerada, que era para dar condições para o bairro para que as pessoas não saíssem de lá, tivessem lá escola, igreja, lazer, etc..
E com isso tudo nós conseguimos dar esse aspecto e transformar Cuiabá de uma cidade provincial a uma capital do Estado. Então eu acho que o maior legado foi as pessoas começarem a ter amor próprio pela cidade, aquele sentimento de que eu vivo numa cidade boa, eu vivo numa capital do estado.

Eu acho que o maior legado foi as pessoas começarem a ter amor próprio pela cidade, aquele sentimento de que eu vivo numa cidade boa
MidiaNews – Já que o senhor tocou no tema asfaltamento, uma das maiores criticas à gestão do prefeito Emanuel Pinheiro é a malha viária. Como o senhor avalia as atuais condições da cidade?
Rodrigues Palma – Olha, eu tenho andado em Cuiabá, e vejo algumas obras importantes. Tem uma que eu vi que é a ligação da Avenida do Barbado até a das Torres, feita pelo Governo do Estado. Se o Governo do Estado está junto com a Prefeitura, imagina a quantidade de coisa que sairia aqui?
Mas a mobilidade urbana não é uma dificuldade só de Cuiabá, mas de todas as cidades brasileiras. E outra coisa importantíssima que eu acho na nossa administração foi o fato do que o prefeito de Cuiabá era extremamente ligado ao governador. Então quando há briga de Prefeitura com o Governo é péssima. Exemplo atual.
Todos os prefeitos que tiveram ajuda e apoio do Governo do Estado, que se ligava com o Governo do Estado, fizeram boas administrações. Todos os prefeitos. Acho que todo mundo que vai pra Prefeitura o objetivo é trabalhar em benefício da população. Qual era o meu interesse maior? Fazer com que a cidade melhorasse, com que as pessoas pudessem viver bem na cidade.
Acho que todo mundo tem esse espírito. Mas se você não tem um apoio como eu tive do governador do Estado, que era José Garcia Neto, faz falta. Também é um grande legado a relação perfeita entre Governo de Estado e Prefeitura de Cuiabá. Isso é fundamental.
MidiaNews – E o senhor acha que a infraestrutura atual é suficiente para atender esses 800 mil habitantes?
Rodrigues Palma – Eu não sei a questão de transporte público, porque carro tem demais. Hoje o que tem de carro circulando em Cuiabá…
Cintia Borges/MidiaNews

Ex-prefeito diz que solução para corrupção é o voto
MidiaNews – Por isso, as pessoas reclamam muito de trânsito e falta de opções de transporte alternativo de qualidade.
Rodrigues Palma – Mas Cuiabá é uma cidade muito antiga e as ruas são muito estreitas. Então é um problema sério, não temos nem calçadas. O Centro de Cuiabá está muito deteriorado, mas não é privilégio daqui. Em São Paulo dá agonia de andar no Centro.
MidiaNews – Na época do senhor o Centro já enfrentava problemas?
Rodrigues Palma – Não. Primeiro que não existia nenhum Shopping Center, as lojas funcionavam no Centro da cidade. O problema maior no Centro é a noite, se você anda ali é um inferno. E durante o dia você tem algum comércio, você tem ainda uma boa movimentação.
Então a ideia de você fazer algumas ocupações, fazer com que o poder público ajude a iniciativa privada a ocupar o Centro com atividades como essa, como museus, escolas, lazer, para que o centro possa receber pessoas e movimentar durante a noite.
MidiaNews – Nesses últimos anos, Cuiabá enfrentou também alguns problemas quanto à questão de corrupção, de problemas com operações, principalmente na saúde. O senhor acha que o principal problema no Alencastro é a corrupção?
Rodrigues Palma – Eu não sei. Eu vejo esses fatos todos aí e para mim isso tem uma solução: voto. Se o povo vota em alguém que está ligado à corrupção, a população é responsável. Aí não tem solução, porque foi a própria população que escolheu. Então não tem jeito. Eu não opino sobre isso, porque é vontade do povo, e vontade do povo não se discute.
MidiaNews – Acha que em meio a essas operações na Prefeitura, asfalto ruim, saúde caótica, a autoestima do cuiabano diminuiu?
Rodrigues Palma – Eu acho que sim. No Dom Aquino, Lixeira e Quilombo fizemos três ginásios que estão praticamente abandonados. Na Morada do Ouro tem um posto de saúde funcionando e ao lado tem um imóvel que era da Prefeitura e está abandonado, caindo aos pedaços. Isso é dinheiro público. Você vai no Araés, tinha uma praça fantástica, está completamente abandonada. E não precisa ser lá, qualquer praça da cidade está tudo abandonado.
Então essas coisas diminuem realmente a autoestima. As pessoas sentem que seu bairro está abandonado.
MidiaNews – Qual análise o senhor faz do cenário eleitoral da Capital? Eduardo Botelho, Lúdio Cabral e Abílio Brunini, qual dos três têm mais chances.
Rodrigues Palma – Eu sei que o Mauro, o governador, tem uma força muito grande, é muito bem avaliado. Então eu acho que vai pesar muito o apoio dele para o Botelho. Mas acho que os três aí são candidatos que estão bem pareados.
O Lúdio foi um vereador muito querido em Cuiabá, é um médico muito bem conceituado, já disputou a Prefeitura, é deputado estadual hoje, é bem votado em Cuiabá e tem uma boa avaliação.
O Botelho é deputado estadual com projeção e tem muito voto em Cuiabá. Ele tem atuação boa e conta com o apoio do governador.
E o Abílio foi candidato a prefeito, deu trabalho, é um bom nome, deputado federal, bem votado. E hoje ele está aí com o apoio do Bolsonaro, que é um apoio extremamente importante. Então vai ser uma eleição difícil. Confesso que eu não arriscaria dizer quem é o favorito.
MidiaNews – E o senhor vai apoiar algum candidato?
Rodrigues Palma – Não. Eu ‘tô’ fora de política. Agora sou um cidadão que só dou o meu voto. Só na hora H eu vou decidir.

Acho que já cumpri a minha missão. Acho que todo mundo tem que saber, igual jogador de futebol, a hora de parar
MidiaNews – E qual o senhor acredita que vai ser o principal desafio do próximo gestor que assumir em 2025?
Rodrigues Palma – Sem dúvidas botar ordem na casa, né? A saúde é uma questão que a Prefeitura precisa assumir. Ficou quanto tempo aí o Estado comandando a saúde em intervenção? Então o primeiro ponto é esse: botar ordem na casa e torcer para que o novo prefeito tenha um bom relacionamento com o governador. Eu, por exemplo, tive um bom relacionamento tanto com o Governo do Estado quanto com o Governo Federal.
MidiaNews – O senhor acha que o próximo prefeito tem que ter um bom relacionamento também com o Governo Federal?
Rodrigues Palma – Sim, claro. Porque arrecadação do Município hoje não é suficiente para você tocar uma administração como da Prefeitura. E Cuiabá é uma cidade relativamente pobre, que hoje melhorou com o agro. Eu peguei a Prefeitura de Cuiabá com um orçamento de 50 milhões de cruzeiros, sendo de arrecadação 35 e 15 de financiamento em empréstimo. Quatro anos depois, o orçamento de Cuiabá era um bilhão de cruzeiros.
Ninguém pagava IPTU. Por quê? Porque não tinha amor próprio, não tinha autoestima. Quando nós começamos a fazer as obras nos bairros, de botar asfalto, a autoestima aumentou e as pessoas pagavam imposto. Eu nunca tive problema com a arrecadação de IPTU. Hoje eu vejo o povo reclamar porque ninguém paga… Falta autoestima.
MidiaNews – O senhor voltaria para a política partidária?
Rodrigues Palma – Não. Acho que já cumpri a minha missão. Acho que todo mundo tem que saber, igual jogador de futebol, a hora de parar. Pelé foi um cara inteligentíssimo por isso. Chegou no momento, chega. E foi o que eu fiz.
Então a minha posição hoje é completamente fora de política, não participo de eleição, não deixo de dar meu voto, vou dar meu voto, faço questão porque não posso me omitir. O voto é importante. Se você não for dar o seu voto, você vai ajudar a eleger bandidos, a eleger pessoas que não tenham condições. Agora, voltar a participar da vida pública, de ser eleito, de disputar, eu não vou mais.
MidiaNews – Vendo todas essas obras que o senhor realizou na sua gestão, o senhor se considera o melhor prefeito de Cuiabá?
Rodrigues Palma – Não, não. Todo mundo entra para ser o melhor, todos que entram para uma função pública, entram com esse espírito. E quem determina se a pessoa é boa ou não é o povo.
Meu coração mandou eu fazer o que eu pudesse fazer por Cuiabá e eu fiz. Então essa é a minha visão de prefeitura. Sinto como um dever cumprido. Acho que não decepcionei, cumpri meu dever.
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