Judiciario
MPE aciona prefeito e quer intervenção no serviço de água de Chapada
O Ministério Público Estadual (MPE) propôs uma ção civil pública contra o Município de Chapada dos Guimarães, o prefeito Osmar Froner e o diretor do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), Guilherme Henrique de Oliveira Costa, pedindo a intervenção e reestruturação da autarquia diante de uma dívida de quase R$ 27,4 milhões com a Energisa, além de problemas administrativos, financeiros e operacionais.

A má gestão de serviços dessa natureza não produz reflexos restritos à esfera interna da Administração Pública, alcançando diretamente direitos fundamentais da população
A ação foi assinada na terça-feira (26) pelo promotor de Justiça Leandro Volochko e tramita na 2ª Vara de Chapada dos Guimarães.
Na ação, o MPE pede que a Justiça nomeie um interventor, e determine que o SAAE apresente, no prazo de 90 dias, um plano de reestruturação administrativa, financeira e operacional da autarquia, que deverá incluir auditorias internas, revisão da estrutura de cargos, estudo sobre aumento de arrecadação, modernização do sistema, redução de desperdícios, revisão tarifária, análise da dívida e realização de concurso público.
“Omissão” e dívida milionária
Conforme a ação, a ampliação do sistema de abastecimento em 2017 elevou significativamente os gastos com energia elétrica, mas o SAAE não revisou tarifas, não reorganizou o orçamento nem adotou medidas para conter os custos, o que, para o MPE, demonstra “quadro persistente de má gestão”.
Para o promotor, desde sua criação, em 2001, a autarquia é marcada por desorganização administrativa, ausência de planejamento financeiro, deficiência operacional e falta de transparência pública. Segundo ele, a dívida em questão cresceu de forma contínua ao longo dos últimos anos sem que fossem adotadas medidas efetivas para conter o avanço do débito ou reorganizar financeiramente o serviço.
O MPE apontou que, em março de 2019, a dívida com a concessionária de energia era de R$ 893 mil. Em 2022, o valor já havia saltado para R$ 12,4 milhões. Já em abril de 2025, o débito atualizado chegou a R$ 19,9 milhões, alcançando R$ 27,3 milhões após aplicação de multas e correções monetárias.
“A autarquia manteve elevado padrão de consumo ao longo dos anos sem a adoção de medidas voltadas à redução ou otimização desses custos, mesmo diante do progressivo agravamento da dívida e da evidente incapacidade financeira de suportar os encargos assumidos”, diz trecho da ação.
O MPE também sustentou que o problema não decorre de um fato isolado, mas de falhas estruturais acumuladas ao longo de diferentes gestões. Entre os pontos citados estão a ausência de controle contábil adequado, omissão no registro oficial da dívida, descumprimento de acordos de parcelamento firmados com a Energisa e falhas no envio de informações ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT).
Segundo a ação, mesmo após confessar a dívida e renegociar os débitos, o SAAE deixou de registrar oficialmente os valores devidos nos demonstrativos contábeis entre os anos de 2018 e 2021. O MPE apontou que isso comprometeu a transparência das contas públicas e dificultou o controle financeiro da autarquia.
Nepotismo e excesso de comissionados
O documento ainda destacou que o último concurso público realizado para o SAAE ocorreu em 2009. Desde então, houve substituição gradual de servidores efetivos por contratados e comissionados. Em 2023, segundo a ação, a autarquia possuía apenas sete servidores concursados, enquanto o número de contratados e comissionados chegou a 34.
O MPE relatou deficiência no Portal da Transparência do SAAE, ausência de informações públicas sobre despesas e servidores, além de denúncias de nepotismo dentro da autarquia.
Uma das denúncias investigadas apontou que a responsável pelos serviços de limpeza seria cunhada de um então diretor-presidente do órgão. Em outro caso, o próprio SAAE admitiu que contratações eram feitas apenas com análise de currículo, sem critérios objetivos ou regulamentação formal.

Requer-se o reconhecimento da responsabilidade subsidiária do Município, dada a sua omissão inescusável no dever de fiscalizar e supervisionar
Problemas operacionais
A ação também menciona problemas operacionais relacionados ao abastecimento de água. Segundo o MPE, em 2017 o próprio SAAE reconheceu que havia mais de mil imóveis sem hidrômetros instalados, além de equipamentos com defeito. O problema só teria sido solucionado em 2023, após outra ação judicial movida pelo Ministério Público.
Além disso, segundo o MPE, o sistema de captação, tratamento e distribuição de água operava sem licença ambiental de operação em estruturas localizadas nos córregos Quineira e Monjolo.
O promotor também destacou a ausência de serviço efetivo de tratamento de esgoto em Chapada dos Guimarães. Segundo ele, a precariedade financeira e administrativa do SAAE coloca em risco a continuidade de serviços considerados essenciais, como abastecimento de água e saneamento básico.
“A má gestão de serviços dessa natureza não produz reflexos restritos à esfera interna da Administração Pública, alcançando diretamente direitos fundamentais da população, especialmente os direitos à saúde, ao saneamento básico, ao meio ambiente equilibrado e à dignidade da pessoa humana”, afirmou o promotor.
Ao requerer a responsabilização do Município, o MPE destacou que a Prefeitura falhou na fiscalização e no acompanhamento da situação financeira e orçamentária do SAAE. Ainda segundo o promotor, a reestruturação pretendida depende da participação direta da Prefeitura, inclusive com reforço financeiro para viabilizar as mudanças administrativas e operacionais necessárias
“Diante do exposto, requer-se o reconhecimento da responsabilidade subsidiária do Município, dada a sua omissão inescusável no dever de fiscalizar e supervisionar a gestão financeira e administrativa do SAAE, garantindo-se, assim, a eficácia de eventual condenação”, concluiu.
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