Opinião
O vizinho invisível
Gabriel Novis Neves
Moramos próximos, mas quase não nos conhecemos. O que pensará o vizinho de porta que jamais cruzamos no elevador?.
Estamos tão perto… e tão distantes!.
Meu edifício tem um apartamento por andar.
O contato entre os moradores é raríssimo.
Alguns se encontram nas reuniões do condomínio. Outros nos elevadores.
Criaram até um grupo de WhatsApp para os moradores dos vinte andares do prédio, inaugurado há mais de trinta anos, se comunicarem.
O prédio envelheceu — e seus primeiros moradores também.
Mesmo assim, as trocas de mensagens são escassas.
As crianças cresceram, diminuíram as festinhas no salão, hoje quase sempre vazio.
Com a idade, tornei-me cadeirante. Sou um dos mais antigos moradores — talvez o segundo.
Quando uso o elevador, estou com o motorista e cuidadora. Não sobra espaço para mais ninguém.
Subo e desço sem cruzar com um vizinho sequer.
O que será que pensam de mim?.
Alguns, dos mais novos, ainda se lembram de mim — mas não nos comunicamos.
Mesmo morando em um arranha-céu, estamos isolados uns dos outros.
Nasci em uma cidadezinha do interior do Brasil, com menos de trinta mil habitantes, há noventa anos.
Todos se conheciam. Não havia edifícios, apenas casas e alguns sobrados.
Quando a universidade federal chegou, Cuiabá tinha cem mil habitantes.
Com seus cinquenta e cinco anos de existência, a população sextuplicou, e a cidade se encheu de espigões residenciais.
O progresso chegou com velocidade,
Transformando a velha cidade em metrópole. Mas o desenvolvimento — esse ainda o esperamos com ansiedade.
Lembro daquela Cuiabá onde as crianças nasciam em casa, pelas mãos das parteiras.
Onde todos frequentavam os mesmos lugares, desde cedo: a escola pública, o médico do Posto de Saúde na rua 13 de Junho, esquina com a Dom Bosco.
Quem morava no Porto ia à igreja de São Gonçalo; os do Centro, à velha Catedral.
Os vizinhos eram visíveis — e sabíamos tudo uns dos outros, nessa gostosa promiscuidade social.
Ia-se da colher de açúcar emprestada ao vestido de gala para o casamento.
Quem tinha algum recurso, viajava para estudar fora de Cuiabá.
Alguns voltavam, casados com moças de fora. Outros ficavam por lá.
Crescemos é verdade. Mas perdemos a grande família que fomos.
Somos vizinhos invisíveis.
Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT, e ex-secretário de Estado.
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Criaram até um grupo de WhatsApp para os moradores dos vinte andares do prédio, inaugurado há mais de trinta anos, se comunicarem.
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Subo e desço sem cruzar com um vizinho sequer.
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Alguns, dos mais novos, ainda se lembram de mim — mas não nos comunicamos.
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Nasci em uma cidadezinha do interior do Brasil, com menos de trinta mil habitantes, há noventa anos.
Todos se conheciam. Não havia edifícios, apenas casas e alguns sobrados.
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Transformando a velha cidade em metrópole. Mas o desenvolvimento — esse ainda o esperamos com ansiedade.
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Onde todos frequentavam os mesmos lugares, desde cedo: a escola pública, o médico do Posto de Saúde na rua 13 de Junho, esquina com a Dom Bosco.
Quem morava no Porto ia à igreja de São Gonçalo; os do Centro, à velha Catedral.
Os vizinhos eram visíveis — e sabíamos tudo uns dos outros, nessa gostosa promiscuidade social.
Ia-se da colher de açúcar emprestada ao vestido de gala para o casamento.
Quem tinha algum recurso, viajava para estudar fora de Cuiabá.
Alguns voltavam, casados com moças de fora. Outros ficavam por lá.
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