Judiciario
Rubens e ex-assessores movimentaram R$ 200 milhões em 4 anos
Denúncia do Ministério Público Federal (MPF) apontou indícios de enriquecimento ilícito e valores incompatíveis com a renda do ex-presidente da Unimed Cuiabá, Rubens Carlos de Oliveira Júnior, e de integrantes de sua gestão, que se tornaram réus na Justiça Federal por estelionato e lavagem de dinheiro. Segundo o MPF, entre 2021 e 2024, eles movimentaram cerca de R$ 217 milhões.

A denunciada movimentou, apenas nessa conta bancária, a assombrosa cifra de quase R$ 200 milhões
A denúncia é oriunda da Operação Bilanz, da Polícia Federal, que apura um suposto rombo de R$ 400 milhões na cooperativa, entre 2020 a 2022, e trata especificamente sobre a suspeita de fraude no contrato de comissão de R$ 700 mil à empresa Arché Negócios Ltda.
Além de Rubens, respondem à ação penal a advogada Jaqueline Proença Larrea Mees, ex-assessora jurídica da cooperativa; o ex-consultor executivo Eroaldo de Oliveira; a ex-superintendente administrativa e financeira Ana Paula Parizotto; a ex-diretora administrativa financeira Suzana Aparecida Rodrigues dos Santos Palma; e o sócio-administrador da Arche Negócios Ltda., Erikson Tesolini Viana.
Segundo o documento, o MPF analisou a evolução patrimonial dos réus entre 2021 e o início de 2024 e identificou indícios de aumento de patrimônio sem justificativa legal por parte de Rubens, Ana Paula, Jaqueline e Eroaldo, além do uso de empresas e operações para ocultar valores.
Valores suspeitos
Ana Paula aparece com um dos maiores volumes, com quase R$ 200 milhões movimentados em uma única conta bancária entre 2021 e 2024. Segundo o MPF, ela também apresentou R$ 5,3 milhões em valores incompatíveis com a renda declarada, entre 2021 e 2023.
“Ademais, a magnitude da lavagem de capitais operada por Ana Paula atinge contornos astronômicos ao se analisar a sua conta junto à Caixa Econômica Federal. A denunciada movimentou, apenas nessa conta bancária, a assombrosa cifra de quase R$ 200 milhões no periodo de 04/01/2021 a 30/08/2024 (R$ 96.731 .277,70 em créditos e R$ 96.968.530,80 em débitos)”, consta no documento.
“Tal volume colossal, absolutamente incompatível com seus rendimentos lícitos, corrobora a sua expertise contumaz e profissional na dissimulação de ativos ilícitos perante o sistema financeiro”.
Lotérica
Reprodução

Jaqueline Mees, Eroaldo de Oliveira, Ana Paula Parizotto e Suzana Palma: réus por estelionato e lavagem de dinheiro
De acordo com a denúncia, ela utilizava a empresa Lotérica Tô Rico Ltda. para ocultar valores. A empresa teria registrado R$ 4,6 milhões em operações consideradas atípicas, com depósitos fracionados próximos ao limite de comunicação obrigatória e transações descritas como tentativa de burlar mecanismos de controle.
Já a advogada Jaqueline Mees é apontada como responsável por dar aparência legal às operações ilícitas. De acordo com o MPF, ela movimentou R$ 8,8 milhões, a maior incompatibilidade financeira entre os investigados, além de ter omitido a compra de um apartamento em João Pessoa de suas declarações fiscais.
Quanto a Rubens, o documento indica que ele teria registrado R$ 3,5 milhões em valores incompatíveis com sua renda entre 2021 e 2023. A denúncia também aponta o uso da empresa Aramis Administração e Participações Ltda., que apresentou variação patrimonial sem origem comprovada de mais de R$ 500 mil na compra de imóveis, além de cerca de R$ 1 milhão em operações suspeitas.
Outra empresa citada, a Lapat Cuiabá, ligada ao ex-presidente da cooperativa, teria registrado mais de R$ 1,5 milhão sem lastro compatível no mesmo período.
Por fim, o MPF aponta que o ex-consultor executivo Eroaldo de Oliveira apresentou valores incompatíveis de R$ 3,2 milhões. Ele também teria adquirido, sem declarar ao fisco, uma sala comercial no Edifício Advanced, no bairro Duque de Caxias, em Cuiabá, no valor de R$ 790 mil.
Ainda de acordo com o MPF, a empresa AH2-Oliveira Assessoria e Consultoria Empresarial Ltda., ligada a Eroaldo, também registrou valores incompatíveis de R$ 545 mil.
“Mais grave ainda, a perícia descobriu que Eroaldo adquiriu de forma oculta (sem declarar ao fisco) a Sala nº 411 do edifício Advanced por R$ 790.000,00. Trata-se do exato e idêntico local onde o investigado recebeu ERIKSON e o dinheiro físico no dia 28/12/2022. A aquisição sub-reptícia do próprio “palco” do encontro clandestino materializa, de forma acachapante, a fase de integração do dinheiro sujo no mercado imobiliário”, escreveu o MPF.
A comissão
Segundo o MPF, o contrato de comissão entre a Unimed Cuiabá e a empresa Arche Negócios Ltda., por uma suposta intermediação de um empréstimo de R$ 33 milhões junto ao Sicoob, foi assinado entre os dias 14 e 16 de dezembro de 2022, mas com data retroativa a 19 de outubro.A nota fiscal, no valor de R$ 700 mil, foi emitida antes da assinatura efetiva do documento, o que levantou suspeitas.
Auditoria interna da cooperativa também apontou inconsistências, como a descrição genérica do serviço e o registro direto da nota no sistema por uma das investigadas.
Ainda conforme a denúncia, o Sicoob informou que a negociação ocorreu diretamente com a Unimed, sem intermediários, e já estava concluída antes da formalização do contrato com a Arche. Para o MPF, há indícios de que o serviço nunca foi prestado e que o contrato foi simulado para desviar recursos da cooperativa, incluindo pagamento acima do limite previsto.
Operação Bilanz
A Operação Bilanz, da Polícia Federal, foi deflagrada em outubro de 2024, após uma revisão nas contas da cooperativa, que constatou uma série de inconsistências e irregularidades na gestão de Rubens (2019-2023).
O achado mais relevante foi o balanço contábil de 2022, que teria sido “maquiado”. Segundo a investigação, o balanço inicialmente apresentava saldo positivo de R$ 370 mil, mas a auditoria demonstrou inconsistências de R$ 400 milhões.
Dentre os problemas elencados estão contratos irregulares, antecipação de pagamentos de forma indevida, relação desigual com fornecedores, aquisições e construção de obras sem a autorização em assembleia geral, entre outras muitas questões que colocaram a conta da cooperativa em estado alarmante.
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