Judiciario
Delatora diz que contrato foi assinado em jantar regado a vinho
A médica Suzana Aparecida Rodrigues dos Santos Palma, ex-diretora financeira da Unimed Cuiabá, revelou em acordo de colaboração premiada que o ex-presidente da cooperativa, Rubens de Oliveira Junior, assinava contratos em jantares não profissionais, regados a bebida alcoólica.

A primeira vez que ela ofereceu jantar na residência dela, eu vi que ele estava alcolizado
A médica atuou na gestão de Rubens entre 2019 e 2023 e foi alvo da Operação Bilanz, da Polícia Federal. No último dia 10 de março, a delação feita no Ministério Público Federal (MPF), foi homologada pelo juiz federal Jeferson Schneider, da 5ª Vara Federal Criminal.
Suzana revelou que participou de um jantar, na casa da ex-assessora jurídica Jaqueline Proença Larrea, em um condomínio de luxo na Capital, em que presenciou Rubens assinando um contrato. O ex-presidente é tratado como “mentor” do suposta esquema que causou um rombo financeiro estimado em cerca de R$ 400 milhões na cooperativa.
“A primeira vez que ela ofereceu jantar na residência dela, eu vi que ele estava alcoolizado. Eu vi que ele estava, mas não sei dizer exatamente. É que ele bebia muito! E às vezes a pessoa que bebe muito, você acha que bebeu muito, mas a pessoa em si acha que não bebeu”, disse.
“[…] Nesse dia, a cozinha fica na parte de cima, e ela [Jaqueline] desceu e foi até alguma sala da casa dela (eu acho) e trouxe [um papel]. E eu olhei o papel e disse: ‘É da Unimed’. Ela disse: ‘É contrato’”, contou.
“Rubens viajava muito e nem sempre ela estava com ele na Unimed, naquele momento, com aquele documento, e ela pegava a assinatura dele lá [no jantar]”, emendou.
A médica contou que, na ocasião, Rubens a ordenou: “Assina, Suzana”. “E eu assinei um. E questionei: ‘Porque esses papéis estão aqui’. E ela disse: ‘Eu guardo na minha casa, porque são documentos sérios e que eu tenho medo que desapareça dentro da Unimed”, contou.
No relato, Suzana disse que participou apenas desse jantar na casa de Jaqueline, mas que soube que eles eram frequentes. “Com certa frequência. Sempre ela… Ela era a que mais recebia”, disse.
Sala de vinhos
Suzana ainda revelou que havia uma “sala de vinhos” anexa ao da presidência na sede da Unimed Cuiabá, onde haviam encontros “informais” com médicos para tratar sobre assuntos da cooperativa.
“Eram reuniões informais, não eram reuniões pautadas. Era: ‘Cheguei e estou fazendo parte’. Era um happy hour, digamos”, disse.
“Vergonha imensa”

E a única pessoa que poderia autorizar isso seria o presidente
A médica ainda afirmou não ter conhecimento nem ter atuado na suposta fraude nas contas. “Para mim, é uma vergonha imensa ser acusada de organização criminosa”, disse.
Ela disse ao representante do Ministério Público Federal que “não quer acreditar” que os balancetes da gestão em que atuou estejam fraudados. No entanto, pondera que, caso tenha havido alguma alteração, ela teria ocorrido com o conhecimento do então presidente Rubens.
“Um balanço não se faz naquela hora. Ele é reflexo de todos os balancetes [realizados] ao longo de 12 meses. Nunca passou pela minha cabeça que o balanço era falso. Mas, se for falso, a única pessoa que eu interpreto que poderia fazer isso seria a contadora. E a única pessoa que poderia autorizar isso seria o presidente”, disse Suzana.
Operação Bilanz
A delação foi feita no âmbito das investigações da Operação Bilanz. As investigações apontam que a antiga gestão da cooperativa teria manipulado informações contábeis, especialmente no DIOPS (Documento de Informações Periódicas das Operadoras de Planos de Assistência à Saúde), enviado à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
A perícia contábil da Polícia Federal concluiu que o balanço financeiro de 2022 apresentava distorções que transformaram um prejuízo superior a R$ 400 milhões em um superávit de R$ 371,8 mil.
Além de Suzana, Jaqueline e Rubens, são investigados Eroaldo de Oliveira (ex-consultor executivo), Ana Paula Parizotto (ex-superintendente administrativa-financeira) e a contadora Tatiana Gracielle Bassan Leite (ex-chefe de núcleo de compliance).
Os investigados respondem por crimes como falsidade ideológica, estelionato, lavagem de dinheiro e organização criminosa, relacionados às irregularidades que teriam ocorrido durante a gestão entre 2019 e 2023.
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