Judiciario
Empresário respondia a Neném, um dos maiores traficantes de MT
O empresário Flávio Henrique Lucas, condenado a 21 anos de prisão por tráfico de drogas e associação para o tráfico, atuava como uma espécie de “funcionário” de Marco Antônio da Silva, o “Neném” — considerado um dos maiores fornecedores de drogas de Mato Grosso e atualmente foragido.

Restou ainda evidenciado que Flávio responde diretamente a um superior hierárquico identificado como Marco Antônio da Silva, vulgo “Neném” a quem se refere como “Homi”
A informação consta na sentença condenatória, assinada pelo juiz Douglas Bernardes Romão, da 1ª Vara Criminal de Barra do Garças.
Além de Flávio Lucas, sua esposa, a cirurgiã-dentista Mara Kenia Dier Lucas, também foi condenada a 21 anos de prisão pelos mesmos crimes. Os dois estão presos desde maio do ano passado, após serem alvos da Operação Escamotes, deflagrada pela Polícia Federal.
No documento, o juiz afirmou que Flávio respondia diretamente a Marco Antônio, que seria o líder da estrutura criminosa, com quem tinha constante contato, e a quem se referia como “Homi” ou “Patrão”.
“Restou ainda evidenciado que Flávio responde diretamente a um superior hierárquico identificado como Marco Antônio da Silva, vulgo “Neném” a quem se refere como “Homi”, o qual, se encontra foragido e é apontado como chefe da organização criminosa e principal responsável pelo financiamento das operações ilícitas, sendo alvo de operações policiais anteriores pela prática de crimes relacionados ao tráfico de drogas”, escreveu o juiz.
Devido à sua situação de foragido da Justiça, ele foi suspenso no processo. Entretanto, diante da comprovação de que ele teria posição de liderança no grupo criminosa, foi determinada a alienação dos bens imóveis dele.
“Ainda que o processo em relação a ele esteja suspenso, há relevante material probatório que apontam sua posição de liderança na estrutura criminosa, o que justifica a aplicação dos instrumentos legais disponíveis para impedir que os bens eventualmente adquiridos com recursos ilícitos sejam dissipados ou permaneçam improdutivos”, consta na decisão.
“Vivendo na Bolívia”
No julgamento, o delegado de Polícia Federal José Félix Jesus da Rocha, que conduziu as investigações, relatou que acredita que Marco esteja vivendo na Bolívia. O delegado também falou sobre o histórico criminal do traficante, que é conhecido das autoridades.
“O Marco tem uma ficha criminal muito grande. Ele já tinha sido alvo de operação no ano de 2013 pela Polícia Civil. Ele forjou uma identidade tanto pra ele quanto pra a família. Para a esposa, que ele mudou o nome também, e até para o filho recém-nascido, fugindo dessa ação. Ele era a pessoa em quem o Flávio sempre reportava como o 01, como chefe da organização”, disse José Félix.
Segundo o delegado, Flávio pedia autorização para Marco para executar as ações da quadrilha, e prestava contas a ele acerca de repasses do grupo. Nos registros coletados da quebra de sigilo telemático, ainda foram encontradas várias conversas entre os dois, inclusive chamadas de vídeo.
“Tudo indica que ele era a pessoa que, além de fazer essa coordenação, recebia o entorpecente do exterior. O tráfico era interestadual, mas essa droga com certeza vem da Bolívia e através dessa associação ele distribuía e cobrava os dividendos do resto da associação”, disse.
“Inclusive tem imagem no celular do Flávio, onde tem uma reunião, e o Marco, ele senta numa cadeira de destaque, como se fosse o líder do grupo. Então, a investigação conclui que realmente o Marco está foragido, provavelmente esteja na Bolívia, a gente não sabe. Ele era o líder dessa associação criminosa, com certeza”, completou.
Operação Abadom
Marco Antônio foi alvo da Polícia Civil de Mato Grosso, em 2013, em operação que resultou na prisão do delegado João Bosco de Barros, à época titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa de Cuiabá, a esposa dele, a escrivã de Polícia Civil, Gláucia Cristina Moura Alt e outros três policiais.
Conforme a investigação, o grupo foi acusado de dar proteção, mediante extorsão, a uma quadrilha de tráfico de drogas comandada por “Neném”, que comprava drogas na região da fronteira de Mato Grosso com a Bolívia para vender a outros traficantes na Grande Cuiabá.
A delegada Alana Cardoso, na época da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Capital (DRE), afirmou que os policiais não eram alvos das investigações, e que a descoberta da participação deles foi um “incidente”. Segundo ela, os policiais liberaram os suspeitos e drogas apreendidas em duas oportunidades.
“Eles se tornaram parte do grupo, uma vez que asseguraram proteção e, também, dificultaram a investigação por parte da Delegacia de Repressão a Entorpecentes. Eles acabaram recebendo vantagem indevida”, disse a delegada.
Em decorrência da investigação, três investigadores foram condenados a penas de cinco anos e oito meses a nove anos de prisão, além de perderem seus cargos. Gláucia Alt chegou a ser condenada, mas foi posteriormente absolvida. O delegado João Bosto foi excluído do processo após seu falecimento, em maio de 2024.
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