Judiciario
Delegado detalha ciúme doentio e stalking: “Tratava vítima como posse”
O delegado Marcel Oliveira, responsável pelas investigações do assassinato de Thays Machado e Willian César Moreno, afirmou que o empresário Carlos Alberto Gomes Bezerra, o Carlinhos Bezerra, mantinha uma perseguição obsessiva contra a ex-companheira e a tratava como uma propriedade.

Foram ouvidos vários colegas de trabalho e amigos, e todos foram unânimes em dizer que era um ciúme doentio
O depoimento foi prestado na manhã desta sexta-feira (31), durante o Tribunal do Júri do empresário, realizado no Fórum de Cuiabá. O julgamento é aberto ao público, mas a imprensa não tem permissão para fazer imagens.
Segundo o delegado, as investigações revelaram um histórico de violência, monitoramento constante e perseguições que antecederam o crime ocorrido em janeiro de 2023.
“Foram ouvidos vários colegas de trabalho e amigos, e todos foram unânimes em dizer que era um ciúme doentio. Ele tratava a vítima como posse”, afirmou.
Marcel relatou que a Polícia Civil foi acionada logo após o duplo homicídio e, ao chegar ao local, o porteiro do edifício afirmou ter visto um veículo dar ré e descer a rua antes de parar em frente às vítimas, quando os disparos foram efetuados.
Ainda conforme o delegado, o irmão de Thays contou que, poucas horas antes do assassinato, Carlinhos já havia perseguido a ex-companheira utilizando o mesmo veículo.
Reprodução

Thays Machado e Carlinhos Bezerra; ambos tiveram relação marcada por ciúmes
O empresário foi localizado pouco tempo depois e, durante a abordagem, não reagiu à prisão. De acordo com Marcel, ele indicou imediatamente aos policiais onde estavam a arma utilizada no crime e o telefone celular. Em depoimento, confessou os assassinatos e alegou sofrer de neuropatia.
Monitoramento
A Polícia Civil investigou como Carlinhos conseguia saber, com precisão, onde Thays estava. A suspeita levou os investigadores a cumprirem um mandado de busca e apreensão na residência do empresário.
No imóvel, segundo o delegado, foi encontrado um vasto material que comprovava a perseguição sistemática à vítima.
Havia anotações com informações obtidas por geolocalização, registros detalhando horários, deslocamentos e até observações sobre o comportamento de Thays.
“Era uma perseguição sistemática de tudo o que a vítima fazia. Encontramos um farto material probatório”, disse.
Também foram apreendidos equipamentos de escuta, aparelhos de GPS, documentos e mensagens armazenadas em celulares, que, conforme o delegado, reforçaram a investigação por stalking.
“Premeditado”
Marcel Oliveira afirmou que as mensagens trocadas entre o ex-casal mostravam que Thays já havia percebido que estava sendo perseguida.
Segundo ele, durante o réveillon, a vítima questionou Carlinhos sobre o monitoramento constante. Em resposta, o empresário enviava mensagens insistentes perguntando onde ela estava e com quem estava.
Entre as mensagens analisadas pela Polícia Civil, havia cobranças como: “Atende o telefone, porra. Não está vendo que estou te ligando? Está conversando com quem?”, contou o delegado

Você verifica, ao longo de toda essa trajetória, várias práticas de violência. O feminicídio é um crime de ódio
Para Marcel, todo o conjunto de provas demonstra que o crime vinha sendo planejado.
“Com essas informações, você verifica que esse crime estava premeditado para acontecer e só não aconteceu durante a madrugada devido à intervenção de uma policial”, disse.
O delegado ainda relatou que testemunhas ouvidas durante a investigação narraram outros episódios de violência ao longo do relacionamento, incluindo uma ocasião em que Carlinhos teria tentado atropelar Thays após ela deixar uma boate com amigos.
“Você verifica, ao longo de toda essa trajetória, várias práticas de violência. O feminicídio é um crime de ódio. É muito nítido e muito claro: se a vítima não é minha, não será de mais ninguém”, completou.
O caso
Filho do ex-deputado federal Carlos Bezerra (MDB), Carlinhos Bezerra é réu confesso pelos assassinatos da ex-companheira Thays Machado, de 44 anos, e do namorado dela, Willian César Moreno, de 30.
O crime ocorreu na noite de 18 de janeiro de 2023, em frente ao Edifício Solar Monet, no Bairro Consil, em Cuiabá. O casal aguardava um carro de aplicativo quando foi surpreendido pelo empresário, que efetuou diversos disparos.
De acordo com a Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec), Thays foi atingida por três tiros, sendo dois nas costas e um no quadril. Willian foi baleado no braço esquerdo e no peito.
À época, Thays era servidora do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJ-MT), enquanto Willian era empresário em São Paulo.
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