Judiciario
Defesa alega conflito pessoal e pede afastamento de juíza do julgamento de Paccola por assassinato
Conteúdo/ODOC – A defesa do tenente-coronel e ex-vereador Marcos Paccola pediu o afastamento da juíza Mônica Perri da condução do júri em que o militar responderá pela morte do policial penal Alexandre Miyagawa de Barros. O requerimento foi protocolado nesta segunda-feira (14), na 1ª Vara Criminal de Cuiabá, pelo advogado Cláudio Dalledone.
Além da suspeição da magistrada, a defesa solicita uma nova data para o julgamento, atualmente marcado para 22 de outubro, acesso integral às provas apreendidas e aos arquivos digitais do processo, inspeção das armas recolhidas e a substituição de uma testemunha por um especialista técnico.
O pedido de afastamento está relacionado a um conflito anterior entre Dalledone e Mônica Perri. Em dezembro de 2025, o advogado atuou no julgamento do investigador Mário Wilson Gonçalves, presidido pela mesma magistrada. Divergências ocorridas durante a sessão resultaram em uma reclamação disciplinar contra a juíza no Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
O episódio ganhou repercussão após Perri usar a expressão “que se dane a OAB” durante o julgamento. A magistrada afirmou posteriormente que a manifestação ocorreu de maneira circunstancial e não teve a intenção de atingir a instituição. Também alegou que os advogados teriam provocado tumulto na sessão com questionamentos repetitivos e protelatórios.
A reclamação permanece em andamento. Em 14 de agosto, o corregedor nacional de Justiça, ministro Campbell Marques, determinou que a Corregedoria-Geral da Justiça de Mato Grosso apurasse os fatos. O procedimento no CNJ ficou suspenso até a conclusão da investigação local, sem ser arquivado.
Ao pedir a saída de Perri do caso Paccola, Dalledone sustenta que o conflito deixou de estar restrito ao julgamento anterior e passou a envolver diretamente a relação entre a magistrada e o advogado.
“Os acontecimentos disciplinares tiveram origem em outro processo; a circunstância a ser examinada neste feito é a continuidade da relação entre a magistrada e o mesmo advogado”, argumentou a defesa.
Segundo o requerimento, Perri já declarou suspeição em outros dois processos nos quais Dalledone atuava, após reconhecer a existência de uma relação pessoal e conflituosa com os integrantes da banca. Para a defesa, a permanência da juíza poderia comprometer a imparcialidade e a serenidade exigidas na condução do Tribunal do Júri.
Dalledone também rebateu eventual interpretação de que sua contratação teria sido utilizada como estratégia para retirar a magistrada do processo. Ele afirma que assumiu o caso somente após a renúncia dos antigos advogados de Paccola e dentro do prazo concedido pela Justiça.
O júri estava inicialmente previsto para 27 de agosto, mas foi transferido para 22 de outubro depois que Ricardo e Bárbara Monteiro deixaram a defesa por motivo de foro íntimo. Paccola foi intimado pessoalmente em 18 de agosto para contratar novos representantes e declarou que não aceitaria a atuação da Defensoria Pública.
A defesa pede agora uma nova remarcação porque Dalledone já possui outro júri agendado no Rio de Janeiro para 22 de outubro. Conforme o advogado, esse compromisso foi marcado em março, mais de cinco meses antes da definição da nova data do julgamento em Cuiabá.
Outro ponto do requerimento é o acesso completo ao material probatório, especialmente ao conteúdo extraído de aparelhos celulares e às armas apreendidas. A defesa afirma que precisa examinar os elementos antes da sessão para atuar em igualdade de condições com a acusação.
Também foi solicitada a substituição de Luciano Lara Leite, apontado pela magistrada como testemunha “doutrinadora”, pelo advogado Mauro Ribas Júnior, apresentado como especialista técnico. A defesa considera necessária a presença de um profissional com conhecimento específico durante o julgamento.
Paccola será julgado pelo homicídio qualificado de Alexandre Miyagawa, morto na noite de 1º de julho de 2022, na Rua Presidente Arthur Bernardes, no bairro Quilombo, em Cuiabá.
De acordo com a denúncia do Ministério Público de Mato Grosso, Alexandre estava acompanhado da então companheira, Janaina Maria Santos Cícero de Sá Caldas. Ela teria entrado na rua em alta velocidade e na contramão, desembarcado do carro e iniciado uma discussão com pessoas que estavam no local.
A acusação afirma que o policial penal retirou a arma que carregava, mas não teria apontado o armamento nem ameaçado terceiros. Ainda conforme o Ministério Público, Paccola se aproximou sem ser percebido e disparou três vezes contra as costas de Alexandre, impedindo qualquer possibilidade de reação.
Os tiros atingiram as regiões dorsais esquerda e direita. A vítima morreu em decorrência de choque hipovolêmico hemorrágico.
Paccola foi denunciado por homicídio qualificado por motivo torpe e pelo uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. Para os promotores, ele teria agido com o objetivo de projetar uma imagem de coragem e, posteriormente, utilizado discursos e publicações para exaltar a própria conduta e depreciar Alexandre.
Após o episódio, Paccola teve o mandato de vereador cassado pela Câmara Municipal de Cuiabá.
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