Judiciario
Cuide para não mudar a decisão do TJ; comprei esse processo
O advogado Roberto Zampieri, assassinado em Cuiabá, teria acertado com o lobista Andreson de Oliveira Gonçalves o pagamento de ao menos R$ 250 mil em propina para garantir uma decisão favorável no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em uma disputa judicial envolvendo uma propriedade rural em Mato Grosso.

Cuide p nada mudar a decisão do TJMT. Eu comprei esse processo […] Estou nela há mais de dez anos
A declaração consta em mensagens reproduzidas na denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Andreson e outras seis pessoas, apresentada na semana passada no âmbito da Operação Sisamnes, que investiga um suposto esquema de venda de decisões judiciais e vazamento de informações sigilosas dentro do tribunal.
Segundo a denúncia, o início da conversa ocorreu em outubro de 2019 e tratava do Recurso Especial nº 1.584.111/MT, relacionado a uma ação de reintegração de posse na qual o advogado atuava para o empresário Carlos Antônio Nogueira Júnior.
Nas mensagens, Zampieri demonstrava preocupação com a possibilidade de reversão da decisão obtida no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJ-MT). “Cuide p nada mudar a decisão do TJMT”, escreveu. Em seguida, afirmou: “eu comprei esse processo (…) estou nela há mais de dez anos”.
“Se precisar dar algo p seu amigo lá, o D…., me fale que eu organizo, mas não deixe mudar nada nesse processo”, consta em outra mensagem compartilhada pelo advogado, reproduzida pela PGR.
“O encadeamento desses elementos demonstra que, no âmbito da organização criminosa delineada, Andreson de Oliveira Gonçalves e Roberto Zampieri ajustaram com Carlos Antônio Nogueira Júnior o pagamento de vantagem indevida de, ao menos, R$ 250.000,00, vinculada ao REsp n. 1.584.111/MT, em trâmite no Superior Tribunal de Justiça”, concluiu a PGR.
A Procuradoria apontou que, semanas depois, Andreson passou a fornecer informações privilegiadas sobre a tramitação do recurso. Em 21 de novembro de 2019, ele encaminhou a Zampieri uma petição protocolada pela parte adversa e informou que “o amigo tá puto”, em referência, segundo a investigação, a um integrante do núcleo de servidores envolvidos no esquema.
Pouco tempo depois, o processo foi encaminhado para análise da ministra relatora Maria Isabel Gallotti. No dia 28 de novembro daquele ano, Andreson comunicou que o processo havia sido “liberado” e enviou a Zampieri um arquivo em PDF contendo uma minuta da decisão que ainda não havia sido assinada nem publicada.
Os registros do STJ analisados pela investigação indicam que a minuta enviada por Andreson havia sido elaborada internamente, um dia antes, pelo servidor Alexandre Henrique Mosso Rodrigues Mendes e preparado para assinatura pelo então chefe de gabinete Daimler Alberto de Campos.
Dois dias depois, em 30 de novembro de 2019, o recurso foi julgado. Segundo a PGR, a decisão publicada reproduziu integralmente a fundamentação da minuta que já havia sido compartilhada previamente por Andreson.
“Meu amigo tá me cobrando”
A denúncia aponta que, após a divulgação do resultado, começaram as cobranças relacionadas ao pagamento da vantagem indevida. Em mensagens reproduzidas pela PGR, Andreson cobrou a realização dos depósitos e afirmou que estava sendo pressionado por terceiros.
“Meu amigo tá me cobrando”, escreveu em dezembro de 2019. Em outra mensagem, afirmou: “Falta 150”.
Já em um áudio enviado em janeiro de 2020, Andreson teria mencionado diretamente valores destinados ao então chefe de gabinete da ministra. “O Daimler me ligou agora perguntando desses 50 mil que falta (…) e final do mês, aqueles 250 seu”.
Segundo a PGR, a quebra do sigilo bancário confirmou movimentações financeiras compatíveis com as cobranças registradas nas conversas. A investigação identificou transferências realizadas por Carlos Antônio Nogueira Júnior para Roberto Zampieri, que posteriormente teriam sido repassadas para a Florais Transportes Ltda., empresa de propriedade de Andreson.
A denúncia
Além de Andreson, também estão entre os denunciados a esposa do lobista, a advogada Mirian Gonçalves; Márcio José Toledo Pinto, ex-servidor do STJ que trabalhou em diversos gabinetes; Daimler Campos, ex-chefe de gabinete da ministra Isabel Gallotti, Vanessa Resende Gonçalves, Diego Cavalcante Gomes, João Batista da Silva, Carlos Antônio Nogueira Júnior e Bernardo Mazzutti.
As investigações foram iniciadas a partir da análise do celular do advogado Roberto Zampieri, morto em 2023, em frente ao seu escritório na Capital mato-grossense.
Os denunciados respondem por corrupção ativa, exploração de prestígio, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Andreson está em prisão domiciliar.
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