Judiciario
PGR: lobista de MT movimentou R$ 572 milhões em cinco anos
O lobista mato-grossense Andreson de Oliveira Gonçalves, preso por suposto envolvimento em um esquema de venda e vazamento de decisões judiciais investigado na Operação Sisamnes, teria movimentado mais de R$ 572,5 milhões em uma de suas empresas entre 2019 e 2024.

O branqueamento passava pela celebração de contratos fictícios de transporte, emissão de notas fiscais e declarações de pagamento simuladas
Os dados constam na denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra o lobista e outas seis pessoas.
Entre os denunciados estão a esposa de Andreson, a advogada Mirian Gonçalves; Márcio José Toledo Pinto, ex-servidor do STJ que trabalhou em diversos gabinetes; e Daimler Campos, o ex-chefe de gabinete da ministra Isabel Gallotti.
Conforme a PGR, o grupo utilizava empresas, contratos fictícios e operações financeiras fracionadas para ocultar a origem de recursos provenientes dos supostos crimes investigados.
O documento descreveu que o suposto esquema de lavagem começava com o ingresso dos valores na esfera de disponibilidade do advogado Roberto Zampieri, morto em 2023, em Cuiabá. Segundo a PGR, os recursos provenientes dos supostos beneficiários das decisões judiciais chegavam a ele por meio de transferências bancárias, pagamentos em espécie e repasses a empresas vinculadas.
Em seguida, conforme a acusação, parte desses valores era transferida para a empresa de Andreson, a Florais Transportes, principal estrutura utilizada para o suposto esquema, apontada como uma espécie de “conta de passagem” para introdução e redistribuição dos valores.
A investigação identificou que Roberto Zampieri repassou R$ 7,28 milhões à empresa entre dezembro de 2019 e junho de 2023.
A PGR apontou que a escolha do setor de transporte rodoviário não teria sido por acaso. Conforme a denúncia, o elevado fluxo financeiro e o grande volume de operações do ramo facilitariam a inserção de recursos sem levantar suspeitas imediatas.
Em uma conversa atribuída a Andreson e reproduzida pela Procuradoria, ele teria afirmado que recebe “muito na conta da transportadora e lanço como STE de frete, como o movimento é violento, pode mandar 10 milhões por dia que não faz diferença”.
Segundo a investigação, entre outubro de 2019 e novembro de 2024 a Florais Transportes recebeu R$ 572.543.473,28 em créditos bancários.
De acordo com a denúncia, o suposto esquema de lavagem funcionava por meio da celebração de contratos fictícios de transporte, emissão de notas fiscais ideologicamente falsas e declarações simuladas de pagamento. Esses documentos serviriam para dar aparência de legalidade aos recursos que ingressavam nas contas da empresa.
“Nessa tipologia, o branqueamento passava pela celebração de contratos fictícios de transporte, emissão de notas fiscais e declarações de pagamento simuladas, que funcionavam como suporte documental para a introdução dos valores ilícitos no sistema financeiro formal”, consta em trecho da denúncia.
Ainda segundo a PGR, após a entrada dos valores nas contas da Florais, os recursos eram redistribuídos entre empresas ligadas ao grupo por meio de transferências consideradas aparentemente regulares e, posteriormente, repassados aos destinatários finais já com aparência de origem lícita.
Segundo a Procuradoria, o grupo também utilizava saques em dinheiro vivo e transferências pulverizadas entre contas de pessoas físicas e jurídicas para dificultar a identificação dos beneficiários finais dos valores.
“Em outros eventos, porém, a dissipação dos valores se desenvolvia por intermédio de operadores financeiros vinculados a Andreson de Oliveira Gonçalves, incumbidos de promover saques em espécie e reintroduzir os valores na economia informal, ampliando a opacidade da cadeia financeira e dificultando a identificação de sua origem criminosa”.
Outras empresas
A denúncia também cita a empresa Marvan Logística e Transportes Eireli, constituída em Cuiabá em 2021 e administrada por Vanessa Resende Gonçalves, esposa do servidor do STJ Márcio José Toledo Pinto. Segundo a PGR, a Florais Transportes atuava como distribuidora de recursos para a empresa.
O levantamento bancário no documento apontou que, entre maio de 2021 e dezembro de 2023, foram realizadas 45 transferências eletrônicas da Florais para a Marvan, totalizando R$ 4,09 milhões. Para a Procuradoria, as operações ocorreram “sem justificativa econômica compatível com a estrutura operacional da empresa receptora”.
“A ausência de estrutura operacional mínima compatível com o porte financeiro das operações registradas — sem empregados, sem frota, sem contratos com terceiros verificáveis, conforme registrado em relatório pela Autoridade Policial —, aliada à frequência, ao volume e à ausência de contrapartida econômica das transferências, evidencia, porém, que os repasses da Florais Transportes para a Marvan não representavam pagamento por serviços efetivamente prestados”. pontuou o procurador-geral.
Descoberta após execução
As investigações da Sisamnes foram iniciadas a partir da análise do celular do advogado Roberto Zampieri, morto em 2023, em Cuiabá, em frente ao seu escritório na capital mato-grossense.
Em seu celular, foram encontradas conversas com desembargadores, empresários e Andreson.
Essa é a primeira denúncia na investigação da Operação Sisamnes, iniciada em 2024 e que trata de suspeitas relacionadas ao segundo tribunal mais importante do país.
Andreson foi denunciado sob acusação de crimes de corrupção ativa, exploração de prestígio, lavagem de dinheiro e de integrar organização criminosa. Ele está em prisão domiciliar em Mato Grosso.
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